01 MAR A 30 MAR 12 .......................................................................

 ANA LUÍSA RODRIGUES.

HOME-MADE

 

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SALA EA-1.23 ESCOLA DE ARQUITECTURA

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PARA QUEM, POR AQUI, PASSAR:

 

Afinidades Electivas é o título do romance de Goethe que quis usar nesta exposição, ou melhor, nesta montagem que procura recriar o meu espaço de trabalho nesta Escola, o meu gabinete pessoal.

Acima de tudo, estes painéis que aqui (re)crio reflectem as minhas escolhas ao longo destes últimos anos, e para os compreender, como nos disse Agustina Bessa-Luis, “precisamos de ter em conta o ponto de vista do sentimento, isto é, todos os dados afectivos da alma, e esta, na sua totalidade, nunca poderá ser compreendida apenas pela inteligência. Por isso, não quero como assunto nada de extravagante, mesmo com timbre de lírico.”

É agora um desafio interpretar o que fui pontualmente recolhendo e cuidadosamente organizando como pano de fundo do meu gabinete. Aqui nada é neutro, tudo traduz uma lealdade ou opinião. Na verdade, cada imagem, cada recorte, tem um certo significado, e não se encontra por acaso. A selecção foi sempre criteriosa, e o crescer da mancha que ocupava o painel, cedo ditou-se por uma determinada lógica, não só cromática mas também temática. Apercebi-me que os espaços circunscreviam-se por temas legíveis e a vontade de os preencher tornou-se viciante:

Despojos de uma investigação, é assim que gosto de chamar ao espaço que dedico à colecção de fotografias daqueles com quem reconheço afinidades; dos Mestres, arquitectos, filósofos, escritores, personagens magníficas que de algum modo marcaram a minha formação. Recolho retratos daqueles sobre os quais gosto de ler, falar e pensar e não paro de perseguir;

A janela é outro tema que me entretém, não só do ponto de vista arquitectónico, mas também pelo seu significado metafórico, poético;

Da Escola guardo alguns instantes que se revelaram oportunidades;

Das viagens por vezes trago algo que me marca, para além do que guardo na memória.

Como quem tatua uma pele e a cicatriza para sempre, deixei-me expor, partilhando, neste recanto, aquilo que me é próximo. Na verdade, a vida é também uma sucessão de momentos que ninguém consegue identificar perfeitamente…

 

Ana Luísa Rodrigues

Guimarães, 01.03.12

 

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O arquivo: recolha e disposição.´

 

Na tradição do estudo das imagens, é recorrente a atenção dada aos arquivos do autor enquanto corpo visual que ultrapassa a soma das partes. Com efeito, quando colocada numa parede, a colecção de fotografias, recortes, amostras, mapas, desenhos e textos corresponde a um híbrido entre palavra e imagem, ampliando a simples sequência temporal para formar uma superfície onde as associações entre os elementos sugerem renovadas possibilidades de ligação. A ordem cronológica de recolha transforma-se numa percepção simultânea onde as todas as imagens aparecem ao mesmo tempo. O arquivo do artista torna-se parte do seu motor criativo, não só pela acumulação de ideias e formas, mas pelo seu carácter livre e associativo, ultrapassando a mera sequência de recolha. Uma nova imagem encontrada hoje pode concretizar sentidos apenas intuídos numa imagem recolhida há muito tempo.

Desse modo, o arquivo pessoal revela as referências e a fonte de muitos traços estéticos na obra e pensamento do autor, mas também, permite a sua renovação sob a tutela de uma hiper-imagem: uma imagem imaterial deduzida das escolhas e associações aparentemente acidentais. Na contemplação do arquivo, o autor assume, por instantes, o papel do espectador. Observa as imagens recebidas com o distanciamento que o seu próprio trabalho não lhe permite. O arquivo funciona como um dispositivo, tanto no sentido de mecanismo visual, como no sentido de disposição de informação no espaço, sob a forma de exposição(1). Para além de associativo, o arquivo é também expansivo e integrador: favorece a receptividade de novos elementos, estimulando a percepção e a imaginação.

Enquanto conjunto flexível de referências o arquivo estabelece a ligação entre o mundo físico dos objectos e o espaço mental e fugidio das memórias ou ideias sem forma exacta. Os ajustamentos e deslocações nesse espaço físico permitem operações mentais de decisão e criação, assemelhando-se a uma mesa trabalho ou a uma folha de processo. Desse modo, o arquivo não é apenas um depósito, resultando num sistema operativo entre a memória e a imaginação.

Nesta exposição, a arquitecta e professora Ana Luísa Rodrigues reconstitui o seu gabinete de trabalho e mostra o seu arquivo de afinidades electivas num amplo espectro: fotografias de arquitectos, imagens de casas, reproduções de pinturas como comentário social, imagens de viagens e elementos auto-biográficos. As imagens são organizadas por núcleos - escola, investigação - seguindo uma experiência organizada e constante de recolha e, revelando as preocupações da autora no âmbito da arquitectura: o espaço da casa, a vida doméstica, a sua representação na modernidade, a herança de alguns nomes tutelares da arquitectura do século XX e ainda, viagem como descoberta e abertura. Pelo seu carácter disciplinado e quotidiano, este arquivo propõe-se como um acto de desenho enquanto disposição das referências pessoais concretizadas no plano de exposição, desafiando o espectador para interpretar relações e completar significados.

 

Paulo Freire de Almeida

Março, 2012

 

(1) Tufte, Edward, The Visual Display of Quantitative Information, Graphic Press, 1983. “Display” corresponde à construção de um modelo de exibição (segundo a possível tradução) que assume características de mecanismo perceptivo.

 

ANA LUÍSA RODRIGUES

 

licenciou-se em Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) em 1994. Em 2000 obteve o grau de Mestre em “Planeamento e Projecto do Ambiente Urbano” pela mesma Universidade. Em 2009 obteve o grau de Doutor na Escola de Arquitectura da Universidade do Minho, onde é docente desde 1999.

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