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 CAROLINA TEIXEIRA.

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ESTÚDIO UM / ESCOLA DE ARQUITECTURA

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DE PASSAGEM

Carolina Teixeira, 2013

 

O escritor americano William Faulkner escreveu: "Uma paisagem conquista-se com as solas dos sapatos, não com as rodas de um automóvel" [1]. Este é o retrato bucólico do flaneur romântico e pitoresco desenhado até então. Todavia, a esse retrato veio juntar-se uma cultura de excessos na qual se abriram enumeras janelas sobre a paisagem.

Tal como o afirmou Alison Smithson, "o carro veio para ficar" [2]. Adaptam-se os caminhos medievais às rodas do automóvel, desenvolve-se uma infra estrutura arterial no território [3] e engendra-se uma nova relação entre o "eu" e a percepção da paisagem. O olhar fugaz e desatento prevalece agora a quem percorre estes "lugares" [4]. Negar a presença do automóvel, é negar o flaneur contemporâneo. Se para William Faulkner a apreensão da paisagem deve focar-se no conjunto dos sentidos, a verdade é que o carro é apenas mais uma janela, onde o olhar prevalece. É um espaço móvel que nos transporta de lugar em lugar, comprimindo tempo e espaço numa memória desfocada. Isola-nos e aproxima-nos destes espaços de transição, denominados, por Marc Augé, como arquétipos do não-lugar: o espaço do viajante [5]. Neles, a escala da percepção é alterada pela fugacidade da relação espaço-tempo-informação.

Aqui expõe-se a captura da paisagem do espaço do viajante, na sua essência fugaz e incompleta - um olhar de passagem. Que melhor objecto de representação que a dicotomia entre estrada e auto estrada. Ambas são palco para automóvel, ambas espaço do viajante contemporâneo português, ambas paisagens insignificantes [6]... cujo elo comum entre elas se fica pelo carro. A auto estrada fica-se pelo espaço genérico, já a estrada nacional, como o define Álvaro Domingues, é a corda de roupa onde tudo se pendura [7]. Ambas compõe paisagens das quais o nosso olhar tende a desviar.

 

[1] www.citador.pt/;

[2] SMITHSON, ALISON, "As in Ds: An Eye on the Road", (Baden, Lard Müller Publishers, 2001, [1ª edição de 1983]);

[3] DOMINGUES, ÁLVARO, "Transgénicos", in André Tavares & Ivo Oliveira, Arquitectura em Lugares Comuns, (Dafne Editora & Daaum, 1ª edição, Porto, 2008), página 27-33;

[4] Citando Marc Augé: "Se um lugar pode definir-se como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode definir-se nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, definirá um não-lugar." [AUGÉ, MARC, "Não-Lugares: introdução à antropologia da sobremodernidade", (90 graus Editora, Lisboa, 2005), página 67] Atendendo à definição de não-lugar proposta por Augé, o uso do termo lugar associado ao espaço do viajante torna-se um paradoxo;

[5] AUGÉ, MARC, "Não-Lugares: introdução à antropologia da sobremodernidade", (90 graus Editora, Lisboa, 2005);

[6] “As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e notáveis são para os pequenos.” [NEVES DA SILVA, PAULO, “Citações e Pensamentos de FRIEDRICH NIETZSCHE”, (CASA DAS LETRAS, 2ª edição, Março 2010), página 59];

[7] DOMINGUES, ÁLVARO, “A Rua da Estrada”, (Dafne Editora, 1ª edição, Porto, 2009), página 10.

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CAROLINA ALEXANDRA ANJOS TEIXEIRA

 

Nasceu a 19 de Abril de 1989. Encontra-se correntemente a estudar Arquitectura na Universidade do Minho e a iniciar a tese de Mestrado.

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