01 MAR A 31 MAR 15 .......................................................................

 JOANA CARDOSO 

“O JARDIM ABANDONADO PEDE O CANTO DAS AVES E DO MAR”

Al Berto

 

 

SALA EA-1.23 ESCOLA DE ARQUITECTURA

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Os animais vêm beber em teus lábios

água púrpura e breves nuvens de açúcar

e no instante de um cometa eclode a última flor viva

o regresso é uma queda dolorosa de órbita em órbita

no entanto

nenhum obstáculo foi suficiente para impedir

este cíclico regresso à terra

nem mesmo o inflexível rigor da morte extraviou

os fascinados rebanhos

 

Al Berto

 

A minha pratica do desenho é mais ou menos conduzida por impulsos e observações, registos, ideias amontoadas e dispersas. Interessam-me os processos simples e directos pois parecem-me inesgotáveis e irrepetíveis. Os materiais mais banais, colados à minha pratica docente, e um contagio de visões primárias e despidas.

Por vezes desvio-me do desenho para outros meios que quero sempre que sejam desconhecidos e intocados por mim. É o caso das fotografias apresentadas, inseridas num contexto de parceria com o fotografo João Pádua (apresentadas anteriormente sob o nome “teste”). As fotografias resultaram da documentação visual de várias intervenções plásticas, provavelmente dentro da categoria da instalação, criadas no telhado do Convento das Dominicas, a convite da organização do Guimarães nocnoc em 2011. O vestígio de um habitat animal, abandonado foi preenchido com elementos de cor e brilho criando uma certa tensão calma entre o que jaz e elementos como plumas, purpurinas e confetis deslocados do uso habitual. Essa improbabilidade foi o tema principal da intervenção.

Também neste contexto do desconhecido desafiei amigos para a criação de um púlpito, projecto que, pouco tempo depois, se tornaria em projecto concorrente no Performance Architecture (Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012), acabando por ser um  dos selecionados. “O Púlpito” habitava inicialmente a minha mente sob a forma de vestido luminoso, desmontável e depois de sessões com dois arquitectos e uma escritora (Nuno André Sousa, Hugo Ferreira e Alice Laranjeira) transformou-se em peça de arquitectura móvel. Como vestido ou como escada este projecto esteve sempre centrado no movimento do corpo como algo testado, estudado, ocultado e até ensaiado, de acordo com um aspecto citado no livro “A traição do eu” de Arno Gruen – grande fonte de ideias para este trabalho.

Apresentam-se aqui outros trabalhos a pastel de óleo, acrílico, lápis de cor, marcador, caneta, constituindo-se como intervenções gráficas em ilustrações do início do século xx, desenho e pintura.

O tema animal é recorrente, para mim, encantador e encantatório. É um mundo fascinante e infinito de formas, expressões corporais, cores que vou misturando, inventando, testando e revelando. Intrigam-me as poses dos animais, os olhares, a aparente, ou não, certeza de saber exactamente o que fazer a cada segundo.

As leituras do quotidiano, do trivial, as expressões do corpo humano, o gesto, a leitura desse mesmo gesto também são registados, assim como temas mais desligados de sentido como o nonsense na série de desenhos “bolos com bichos”.

 

Joana Cardoso

nasceu em Braga em 1975

Bacharelato em Desenho _ ESAP

Licenciatura em Design _ ESAD

Estudos de Doutoramento em Teoria, história e projecto de arquitectura _ Universidade de Valladolid

Leccionou em escolas do ensino básico e secundário assim como em alguns estabelecimentos de ensino superior

 

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