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Miguel Moreira

 MIGUEL MOREIRA.

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SALA EA-1.23 ESCOLA DE ARQUITECTURA

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FUNAMBULISMOS GRÁFICOS

 

Aos registos formalmente mais tradicionais opõe-se a simplicidade gráfica de desenhos de clara tendência padronizante ou de experiências próximas do pictograma. Entre eles, figuras rendilhadas de pendor decorativo e algumas incursões humorísticas.

A aparente variedade temática e estilística das ilustrações e desenhos produzidos nos últimos dois anos esconde um denominador comum que despoletou e motivou o projecto final do Mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão. Eles convergem frequentemente para um tipo de imagem caracterizada pela representação figurativa de situações improváveis, impossíveis ou paradoxais, numa permanente invenção de ambiguidades, desvios e trocadilhos visuais.

Por detrás destas imagens está uma ânsia em tornar visível e verdadeira a mais absurda das situações, que despe o desenho de quaisquer ornamentos, reduzindo-o ao essencial e estritamente necessário. Importa, acima de tudo, registar o trajecto do funâmbulo que, sobre a corda linear e em busca do equilíbrio, vai traçando fronteiras tão voláteis e frágeis quanto o pensamento que as imagina.

M.M.

 

AS FORMAS ALCANÇAM CONCEITOS

 

Os conjuntos de desenhos apresentados por Miguel Moreira correspondem a diferentes processos para ilustrações finais de ideias humorísticas, provérbios populares subvertidos e comentários à atualidade social. Inserem-se na prática do cartoon: uma imagem codificada que se pretende imediata e de efeito surpresa, habitualmente cómico. Na origem de cada conjunto existe uma ideia, ou uma forma conceptual não inteiramente abstrata, nem puramente visual. Essa origem poderá ser indicada por Rudolph Arnheim no título seu capítulo: “Os conceitos tomam forma” [1], transmitindo o impulso entre uma ideia e uma configuração. Assim, através destes desenhos observa-se como as imagens evoluem de figuras tipificadas – raízes, espirais, estrelas - ou como se alteram a partir da dualidade paradoxal do objeto representando duas coisas em simultâneo, como nos exemplos do ‘aquário-escafandro’ ou da ‘couve-coração’.

Porém, o tratamento da imagem inicial estende-se como uma rede onde consequentes modificações parecem subverter a formulação de Arnheim, no sentido em que, durante esse desenvolvimento ‘as formas alcançam conceitos’, apreendendo e fixando novos significados não inteiramente definidos no desenho original. Nas sucessivas séries apresentadas, mostra-se sobretudo a génese e o processo de mudança das formas com a necessária observância ilustrativa: encontrar a combinação gráfica certa entre a linha e a mancha, a composição mais expressiva dos elementos e a subtil modelação dos significados. A exposição mostra folhas com as diversas experiências gráficas em torno de figuras, como um exercício exaustivo de exploração e perseguição que possa finalmente resolver a intuição inicial. Nesse processo de formalização desenvolvido por Miguel Moreira, demonstra-se o carácter inseparável da forma e da ideia, na medida em que a ideia é a forma, o modo específico como o desenho acentua e torna eloquente o conceito, ou, como o torna percetível. E também, como o processo absorve novas ideias imprevistas.

A análise das múltiplas hipóteses, variações e ensaios, exibem o processo criativo nessa particular dimensão transparente do desenho, onde a superfície do papel devolve uma configuração nítida a uma intenção difusa. Entre tentativas, passos em falso e recorrências, a relação entre o desenhador e o desenho poderia ser explicada por uma proximidade que se negoceia com a distância, ora muito perto do resultado, ora sem fim à vista. Desse modo, esta exposição decifra o modelo de trabalho do ilustrador num campo tão exigente como a pequena tira de banda desenhada ou o simples cartoon: a produção de uma imagem para ser percebida num breve instante, sem sacrifício das diversas camadas de significado e complexidade subjacentes que possibilitam uma renovada leitura e fruições.

 

Paulo Freire de Almeida

Abril 2012.

 

[1] ARNHEIM, Visual Thinking, U. California Press, p. 116.

MIGUEL MOREIRA

 

Nasceu no Porto em 1984. Em 2006 licenciou-se em Ciência da Informação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou durante um ano em Itália, na Biblioteca Generale e di Studi Sardi, reaproximando-se do Desenho com a participação em diversos projectos e trabalhos colaborativos de escrita e ilustração. Em 2009 ingressou no Mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão, na FBAUP. Concluiu o mestrado com projecto intitulado: A emergência do alegórico no desenho ou a construção do significado na Ilustração conceptual figurativa.

 

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