01 MAI A 01JUN 08  .........................................................................

 MÓNICA FARIA   

 OUTRO

 

 

 

 

SALA EA-1.23 ESCOLA DE ARQUITECTURA

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A VIDA É UM JOGO


A vida é um jogo, o que quer dizer que tem regras e cartas. Neste caso, caso único entre os jogos, 2 tipos de cartas, as “cartas de jogar”, como é costume dizer, e as “cartas de correio”, onde em vez de serem naipes, números e notáveis aquilo que as cartografa, são desabafos, desaforos, desafios, desassossegos. E também 2 tipos de regras, o que o torna um jogo particularmente difícil de jogar. Tanto mais quanto um tipo de regras não se aplica exclusivamente a um tipo de cartas e o outro ao outro, mas ambos os tipos de regras se aplicam a ambos os tipos de cartas. Um tipo de regras são as regras que se conhecem no início do jogo, regras pré-estabelecidas, o outro são regras que se conhecem no fim do jogo, regras pós-estabelecidas. Exigindo 2 tipos de talentos ou artes, a arte do segredo bem guardado e das pistas falsas, o talento de controlar e manipular, e a arte da perseverança bem evidenciada e das situações reveladoras, o talento de confiar e esperar. Uma esconde exigindo decifração, competência para determinar através do que se vê aquilo que se não vê, a outra deixa correr e acontecer pedindo atenção e sugerindo adivinhação, modalidade da experiência que permite jogar com regras desconhecidas ou inexistentes transformando o indeterminado em determinado. A vida é um jogo quer dizer, consequentemente que quem inscreve “eu sou linda” desenha uma situação de múltiplas duplicidades (presença/ reflexo; instante/duração; identidade/alteridade; afirmação/confirmação; ...) convidando os vários jogadores ou observadores a perderem-se, como condição única e imprescindível para poderem, mais tarde, bem mais tarde, encontrar alguma coisa, por pouco que seja, e muito provavelmente noutras cartas que não estas, noutras cartas já presentes nestas, mas não estas.
V.A.


O DESENHO É UMA JOGADA


O desenho é uma jogada, sim, mas em que jogo? Na medida em que confirma o mundo como ansioso por determinação faz pensar no jogo da “traição impossível”, em que por muito que se tente se revela sempre impossível trair, isto é chegar a um estado em que o que se determina nada tem a ver com o que originou a determinação. O interessante do jogo não é, pois, a reiterada confirmação de tal impossibilidade, mas os momentos de grande intensidade em que a dúvida se instala e o mundo vacila, momentos em que por detrás do mundo parece possível vislumbrar o vazio, o buraco negro que o mundo tem precisamente por missão esconder. Mas se fosse este o jogo de que o desenho é uma jogada como entender que ele pareça obcecado em acrescentar e não em subtrair, em pôr e não em tirar?... Talvez então o jogo seja outro, por exemplo o jogo da “alma perdida”, na medida em que o desenho determina o mundo como carente de confirmação. O interessante seria então menos essa insuportável certeza de perda sempre a pedir compensações e sempre a verificar a inconsistência de tais compensações, que os momentos através dos quais é possível entrever uma plenitude que põe em causa, só por existir, a própria separação entre a alma e o mundo que o jogo tem por função estabelecer e definir. Mas se fosse este o jogo como entender que o desenho não passe sem se medir a qualquer coisa que lhe vem de fora, que lhe é exterior?... Mas talvez não seja mau esta incerteza quanto ao jogo de que o desenho é uma jogada, porque deste modo o desenho que afirma “a minha mãe é linda” pode encontrar-se, por um momento breve mas fortíssimo, com o jogo que um dado observador se imagina a jogar, reforçando no seu espírito a esperança de poder contar com esse desenho para conseguir finalmente corresponder a uma dificuldade que já considerava inultrapassável nesse jogo íntimo que só a ele diz respeito. E por outro lado o desenho que afirma “a minha mãe é linda”, cumprida esta missão de confortar aqueles que lhe dedicam a sua atenção, pode continuar tranquilamente a procurar o jogo a que pertence, talvez mesmo beneficiando, quem sabe, desses múltiplos e diversos olhares, cheios de potencialidades várias, que por um momento lhe sugeriram pertencer ele a um certo e bem determinado jogo.
E.M.

 

Mónica Faria, 1979, natural de Espinho.


Filha de Augusto Ribeiro Faria e Deolinda Moreira Ferraz Faria.
A trabalhar e a viver no Porto desde 2000.

Licenciada em Artes Plásticas, Escultura, pela Universidade do Porto, no ano 2005.
Neste momento faz parte de dois grupos colectivos: O Senhorio e o Identidades.

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