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 NATACHA ANTÃO .

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ESTÚDIO UM / ESCOLA DE ARQUITECTURA

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APROXIMA-TE

 

Escrever este texto para a exposição de desenho que apresento no Estúdio UM tornou-se numa tarefa indócil. Simultaneamente muito fácil, porque na realidade não tenho nada para escrever, e muito difícil, exactamente pela mesma razão.

Importa dizer, de modo a entender melhor o meu dilema, que sou formada em pintura pelo que escrever nunca foi o meu forte nem o meu principal interesse. Desenhar aparentemente, pintar talvez, construir coisas com as mãos foi com frequência uma das minhas actividades favoritas mas escrever não. Por outro lado, estou a investigar, ou seja, também a escrever e a ler sobre desenho e cor no âmbito de uma formação académica.

Dadas as minhas particularidades não parece ser surpresa que tenha ficado exausta de só estar a ler e a escrever sobre desenho e cor. Daí que tenha sentido necessidade de fazer estes desenhos. Não queria pensar em nada e estes desenhos resultaram disso. 

A realização dos estudos em pequeno formato começava por estabelecer as cores e ajudava com a composição. Depois cada desenho era iniciado já com a certeza do gesto, da cor, da composição, as decisões a tomar durante a sua execução resumiam-se ao acto de parar para afiar o lápis. O que aconteceu centenas de vezes… A repetição do gesto e a sua contenção permitiam-me meditar. Abria-se um enorme vazio mental e apenas existia uma marca que se aproximava da outra e assim consequentemente. Cada nova cor que surgia de cada marca e da sua adjacente ou cada surpresa que resultava da sobreposição destas marcas ou a distância a que observava cada desenho levavam-me de novo para ideias e para questões sobre desenho e cor.

O meu tema/interesse/paixão podia também ser pensado a desenhar e não apenas a ler e a escrever. Desenhar surgiu como uma expressão natural das minhas ideias sobre desenho e cor, e a desenhar consigo pensar melhor em tudo o que leio e que tento escrever. A desenhar estes desenhos em particular estou a pensar e a investigar sobre as perguntas e ideias que me preocupam ou que vão surgindo ao longo do trabalho de investigação e que eu entendo incluírem também parte dessa tarefa como investigadora. A minha investigação é realizada a ler, a escrever e a desenhar.

Por isto, e voltando ao início, não tenho nada para escrever sobre estes desenhos porque se tivesse não os teria realizado. Tenho coisas para investigar/desenhar e que mostro aqui.

Se não tenho nada para escrever como é que posso então apresentar um texto cuja função seria a de ajudar a entender ou interpretar estes meus trabalhos.

Parece-me importante que este texto seja concebido, porque considero que há algumas ideias ou questões que foram instigadoras para a realização destes desenhos e que gostaria de partilhar. Algumas destas ideias são de autores que têm pensado na cor, quer pela positiva, quer pela negativa, no modo como esta se relaciona com o desenho ou como existe de forma complexa e independente, em toda a sua ambivalência ao existir no mundo e como fruto da nossa imaginação.

 

Ele parecia um Arlequim. As roupas eram de um pano que lembrava uma holanda marrom, mas traziam remendos por toda parte, remendos espalhafatosos, azuis, vermelhos, amarelos – remendos nas costas, na frente, nos cotovelos, nos joelhos; reforços coloridos no paletó, barras escarlate nas calças; e a luz do sol conferia-lhe um aspecto extremamente jovial e, ademais, maravilhosamente elegante, pois deixava visível a perfeição com que todos aqueles remendos haviam sido feitos.

Josefh Conrad “O Coração das Trevas”

 

Faulques olhou para as suas mãos sujas de tinta vermelha e depois observou o mural que o circundava. As formas mudavam em contacto com a cor. Os espaços em branco, o esboço a carvão na imprimatura da parede tinham deixado de lhe parecer zonas vazias. Sob a luz intensa dos focos de halogéneo, tudo parecia fundir-se no seu cérebro ao estilo das pinturas impressionistas: cores, espaços, volumes que só atingiam a sua correcta integração na retina do espectador.

Arturo Pérez-Reverte “O Pintor de Batalhas”

 

Recordavas, sobretudo, um desses quadros, nos quais tinham pintado uns cavalinhos de cor rosada, como os arrebóis do céu, volteando alegres na Baía dos Traidores, entre marquesanos nus, um dos quais, encarrapitado num cavalo, o montava em pêlo, à beira do mar. Que diriam os requintados de Paris? Que pintar um cavalo cor-de-rosa era uma excentricidade demente. Não podiam suspeitar que, nas Ilhas Marquesas, a bola de fogo do Sol, antes de mergulhar no mar, avermelhava os seres animados e inanimados, irisando por uns milagrosos momentos toda a face desta terra.

Mario Vargas Llosa “O Paraíso na Outra Esquina”

 

 

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