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 ROSÁRIO FORJAZ.

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SALA EA-1.23 ESCOLA DE ARQUITECTURA

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O DESENHO COMO SUDÁRIO

Emília Ferreira

 

Rosário Forjaz já nos habituou a olhar para a natureza através do seu próprio olhar. Analítico e atento, ele materializa-se no seu desenho fluído, em que o gesto modela a linha de modo sinuoso. Em que a cor é aberta em luz, trabalhada em transparências, servindo a estrutura do desenho, revelando o seu corpo. […] prosseguindo a sua investigação sobre uma árvore em particular, a artista toma como mote o dragoeiro. Árvore mítica, a Dracaena draco, originária das Canárias, não se tornou famosa apenas pela sua forma estranha, mas sobretudo pela sua seiva especial, que foi, durante séculos, usada na pintura para mimar o sangue, sobretudo o dos mártires, na vasta narrativa sacra.

[…] O resultado que agora se nos oferece dá a ver um processo que reúne — em fotografia e em desenho — um registo de vários dragoeiros, com diferentes idades e situações biográficas, que habitam jardins de Lisboa: Jardim da Ajuda, Palácio Ribamar, Jardim Botânico da Escola Politécnica e Jardim Tropical. O conceito de árvore como ser vivente, não como mero elemento da paisagem, é aqui patente não apenas pelos registos plásticos, mas até pela estruturação do discurso teórico que os enformam. Se o registo fotográfico (ele próprio reflexo de um pensamento estruturado pelo desenho, como se percebe pela sua qualidade gráfica) já se apresenta como mediador de uma identidade misteriosa e sofrida, de uma árvore que é simultaneamente monumento/património/tempo — metáfora perfeita para os nossos dias, em que o país envelhece em sofrimento —, o registo do desenho torna essa afirmação inequívoca.

 […] O corpo que sangra. Estes desenhos de Rosário Forjaz são elementos de arte sacra por tudo isso. É um sagrado que pode não ser metafísico, mas que não é menos sagrado por isso. […] A repetição dos gestos, esse inventário das feições e das feridas das distintas partes do corpo dessas árvores recolhido em diversos desenhos, em repetição de gestos, ritualiza também a sagração desses seres com os quais a artista se relaciona e repensa.

[…] É o nosso rosto que passa para o desenho. Como num sudário.

Excerto do texto realizado para o catálogo por Emília Ferreira, Curadora da Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea de Almada

 

 

Processo conceptual. Notas de observação

 

- Jardim da Ajuda, Lisboa

- Palácio Ribamar, Algés.

 

Nos dragoeiros do Jardim da Ajuda e do Palácio Ribamar coexistem duas forças antagónicas: a resultante do seu crescimento e a resultante da prótese em ferro colocada no seu centro.

No dragoeiro do Jardim da Ajuda a tensão vertical empurra os grandes e possantes troncos para baixo, para o solo. A estrutura em ferro enraizada no centro da espécie eleva-a para cima.

Da copa trespassada por um eixo vertical negro irradiam longas cordas e tiras de borracha que prendem os troncos. A estrutura de ferro determina o crescimento e a vida da espécie.

Realizei registos fotográficos sequenciais do dragoeiro.

 

 

- Jardim Botânico da Escola Politécnica ao Príncipe Real, Lisboa.

 

São dois os dragoeiros. A densidade e a profusão de troncos e raízes em diferentes fases de crescimento perturbam. As suturas são feridas expostas. Ramos talhados na conformação ao espaço dão a ver entranhas e seiva vermelha. 

 

- Jardim Tropical, Belém, Lisboa

 

O dragoeiro localiza-se no talhão 9.

Plantado num dos cantos junto ao muro que define o jardim.

Uma grande parte dos ramos da árvore está atrofiada no seu crescimento.

ROSÁRIO FORJAZ

 

rosario.forjaz@gmail.com

http://rosarioforjaz.blogsport.com

 

Nasce em Lourenço Marques, Moçambique em 1966.

Licenciatura em Artes Plásticas Pintura pela ESBAP, Mestre em Teoria e Prática do Desenho pela FBAUP

 com a dissertação, “Gesto: A Repetição e o Inefável no Desenho. Pós graduação, Integração da Óptica e luz laser na Expressão Plástica, UA, Cursos de Joalharia e Cerâmica, Curso superior de Cultura e Língua Italiana.

Licença Sabática “Articulação Teoria Prática-Saberes Estruturantes e Materiais de Apoio à Educação/Ensino Artístico”, concedida pelo Ministério da Educação. Orientação de Dra. Elvira Leite. (2002/2003)

Professora da Escola Artística Soares dos Reis na área de Desenho. Formadora do CCPFC.

Orientação de oficinas de Expressão Plástica, Fundação de Serralves, Porto

Autora de manual escolar para a disciplina de Educação Visual do 3º Ciclo do Ensino Básico (7º, 8º e 9º anos), Lisboia/Raíz Editora, (2006, 2012)

Orientação Pedagógica do Mestrado no Ensino das Artes Visuais

Tem participado em diversas exposições e projetos artisticos.

 

Exposições Individuais:

2012,“Dracaena Draco”, Estúdio Um, EAUM, Guimarães

2010, “Melanoselinum”, Livraria 100ª Página, Braga; “Convivermos com o que não sabemos definir é melhor do que sabermos tudo”, Centro Cultural São Mamede, Guimarães.;

2008, ”Herbário de gestos”, Galeria Plumba, Porto;

2005, “Dentro da Paisagem”, Espaço Moçambique, Porto.

 2004, “Árvore Aérea”, QuasiLoja, Porto.

2000,“Impressões de Viagem”, Galeria da Universidade, Museu Nogueira da Silva, Braga.

1995, "Dimensionalidades na ocupação de um espaço”, Cooperativa Árvore, Porto.

1992,“Pintura”, A.P.I.A.R, Porto.

 

Representada na Fundação Joe Berardo, Banco de Fomento e Exterior de Moçambique, Departamento de Física da Universidade de Aveiro, Delegação do Porto da Associação Médica Inernacional, Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, Almada e colecções privadas.

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