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 SOFIA BARREIRA.

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ESTÚDIO UM / ESCOLA DE ARQUITECTURA

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A minha planta morreu

Sofia Barreira

 

A minha planta morreu. A da Laura não, continua a crescer. Decidi, por isso, começar a registar o seu crescimento.

Esta série de desenhos intitulada A minha planta morreu, realizada entre as 9:30h do dia 22 de Fevereiro e as 22:30h do dia 1 de Março de 2013 (1 a 4 desenhos por dia), é o resultado do exercício a que me propus como resposta ao convite para expor no Estúdio UM, da Escola de Arquitectura da Universidade do Minho. Como não costumo desenhar, obriguei-me a fazê-lo disciplinadamente durante a semana que antecedeu a data de início da exposição. Tomei esta decisão imediatamente a seguir à decisão do que desenhar; e esta última imediatamente a seguir a ter feito um desenho para uma outra exposição — Assim espero que seja… (21/02/2013) —, que tinha como intenção evocar e dar continuidade a uma outra série de desenhos: Um dia com Laura… (23/10/2010). O tema principal mantém-se: a relação entre mãe e filha. Mas nos últimos desenhos, de 2013, a relação é apenas representada pelas suas representações: as plantas. Planta mãe, da mãe. Planta filha, da filha. Dois anos e meio depois a planta mãe já não existe, apenas o seu vaso. Dois anos e meio depois a planta filha existe e continua a crescer. Assim espero que seja.

A minha planta morreu, a representação de mim morreu. Mas a representação da Laura não, continua a crescer.

A empatia com o tema é óbvia, quase demasiado sentimental. Tento agora que escrevo, não o ser — até porque a relação afectiva com o referente (que me ajudou na decisão do tema) rapidamente se transformou quando comecei a desenhar; obrigou-me a gerir outras emoções — emoções resultantes de questões operacionais e pragmáticas. Concentrei-me apenas nas mudanças que ocorriam nas formas da planta, porque eram mais evidentes. Escolhi o desenho linear, que resulta da observação directa e registo simultâneos. Fiz experiências em A3 e A4 e rapidamente percebi que o segundo formato me era mais confortável; adoptei-o para a sequência de desenhos a que me propus. A escala que senti ser a mais confortável foi a próxima da escala real da planta. O ponto de vista sobre a planta foi escolhido em função do que queria sobretudo ver (o rebento a desenvolver-se). Insisti em manter a tensão vertical do suporte de desenho, embora, às vezes, a planta adoptasse uma forma mais horizontal do que vertical — primeiro constrangimento identificado. Como não queria alterar muito a escala de desenho para desenho (e que, ainda assim, é difícil de manter) e como não queria que o enquadramento cortasse a planta, vi-me,  em alguns momentos, a fazer "batota" nas folhas da planta mais à esquerda (que foram sempre as últimas a ser desenhadas) tentando ludibriar(-me), aparentando que, pelo menos, controlava a ocupação da folha de desenho. Mas esse esforço de nada me valeu porque estou agora a denunciar-me. Controlar a escala em todos os desenhos seria desejável para se perceber o "verdadeiro" crescimento da planta e respectivas transformações nas suas formas. Seria fácil controlar esse factor se tivesse começado o desenho seguinte por cima do desenho anterior (sobreposição por transparência), deste modo, como se de uma animação se tratasse, teria sempre um ponto de partida sobre o qual poderia ir registando as alterações. Mas decidi não usar essa estratégia. Decidi assumir o risco de não controlar todo o processo. A gestão das emoções e frustrações apenas tinham começado. Decidir aproveitar todos os desenhos, resultantes de primeiras tentativas daqueles instantes sempre únicos, e decidir assumir todos os erros (sejam eles mais imperceptíveis ou sejam eles mais flagrantes e difíceis de aceitar). Convivi sempre bem com a "batota" das folhas da planta mais à esquerda (em fazer com que coubessem sempre dentro do enquadramento dirigindo-as, por norma, para o canto superior esquerdo da folha de desenho), mas, nem sempre consegui conviver bem com aquela forma estática, que se manteve sempre inerte, fixa num determinado lugar e que, pelo facto de não ser uma forma orgânica, mais flagrante se tornou a falta de controle no seu registo: o do vaso. Como escolhi um ponto de vista de cima para baixo, a planta ficava à sua frente, logo o seu registo era constantemente interrompido pelas folhagens, perdendo eu assim, sempre, o controlo da forma do vaso no seu todo. Ele que não é vivo, foi-se reconfigurando de desenho para desenho (tamanho e forma). Enfim, que fazer? Se censurasse os desenhos corria o risco de não ter desenhos nenhuns para apresentar. Se fizesse muitas mais tentativas de cada um (para ter opção de escolha) corria o risco de ter uma sequência infindável de "frames" já que estes iriam ser o registo de momentos sempre únicos. Se usasse o recurso à sobreposição das folhas de desenho para, pelo menos, controlar sempre a forma e tamanho do vaso (passou-me pela cabeça fazer isso), não iria conseguir conviver com essa "batota" e  era preciso que, pelo menos um, estivesse aceitável para servir de "modelo". Também pensei em recorrer à fotografia para, pelo menos, ter um modelo aceitável. Mas, rapidamente, abandonei toda e qualquer espécie de artifício para esconder o inevitável: não só as fragilidades de quem não desenha regularmente como aquilo que caracteriza este tipo de registo gráfico. Restou-me, por isso, seguir o plano definido: registar o crescimento da planta de forma diária, preferencialmente 2 a 3 vezes por dia (já que ao longo do dia a planta acorda, espreguiça-se, levanta-se, mantém-se viva, aborrece-se, cansa-se e adormece). Para isso tive de acrescentar às rotinas quotidianas (dentro de casa), apenas os cerca de 15 minutos por cada desenho: ao acordar, à hora de almoço (nos dias em que podia) e à noite ou, quando não conseguia e em alternativa, de manhã antes de abrir a persiana para apanhar a planta a dormir. Aquele cantinho da sala transformou-se assim numa espécie de lugar impossível de evitar a determinadas horas do dia.

Não ter censurado os desenhos permitiu-me agora ter o que escrever sobre eles. Será também para isto que serve desenhar? Ter pretexto para escrever?

 

SOFIA BARREIRA

 

 

Nasce no Porto em 1976. Em 2000 licencia-se em Artes Plásticas – Escultura pela FBAUP e em 2010 conclui o Mestrado em Ensino de Artes Visuais pela FBAUP e FPCEUP com o Relatório de Mestrado intitulado: Como ensinar a aprender a desenhar?

Actualmente é estudante de doutoramento em Educação Artística na FBAUP e Presidente da Sombra Própria Associação Cultural, associação que alberga o projecto — Clube de Desenho — fundado em Setembro de 2010. O Clube e Desenho promove Cursos de Desenho, concebidos e orientados pelos 4 membros fundadores: Sofia Barreira, Carlos Pinheiro, Marco Mendes e Nuno Sousa e promove Encontros de Desenho com professores convidados.

Colaborou entre 2001 e 2010 com o Serviço Educativo do Museu de Arte Contemporânea de Serralves na orientação de visitas às exposições temporárias do museu. Foi assistente convidada de Desenho na FAUP durante quatro anos consecutivos (2006-2010) leccionando as unidades curriculares de Desenho I e Desenho de Arquitectura. Em 2010/2011, também como assistente convidada, leccionou Desenho 2 no Curso de Design Gráfico do IPCA. Entre 2010-2012 foi assistente convidada de Desenho na EAUM, leccionando Desenho II no curso de Arquitectura e Desenho de Representação no Curso de Design e Marketing de Moda. No ano lectivo 2011/2012 leccionou Desenho, enquanto professora convidada, na Escola Artística e Profissional Árvore, aos cursos de Design Gráfico e Desenho Digital 3D e, orientou os estágios pedagógicos a 4 alunas do Mestrado em Ensino de Artes Visuais, 2 da UP e 2 da UCP.

 

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